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3 de novembro de 2026Bastaram cinco pregões para os agentes econômicos refazerem as contas sobre os juros no Brasil. A semana que se seguiu à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) levou a Bolsa à pior queda semanal desde março de 2020, empurrou o dólar para cima e fez os juros futuros dispararem. É nesse ambiente que o Comitê de Política Monetária (Copom) decide nesta quarta-feira (4) o rumo da Selic, diante de uma hipótese que parecia distante até a véspera do segundo turno: a de que o ciclo de cortes termine com a taxa em 13,75% ao ano.
A decisão deve indicar como o BC avalia o efeito desse choque sobre a inflação e se a sequência de cinco cortes chegou ao fim ou foi apenas suspensa. “A reunião ganhou peso por ser a primeira decisão relevante de política econômica depois da eleição, num momento de incerteza muito alta sobre a política fiscal”, afirma Guilherme Ghidetti, sócio e CIO da Jera Capital.
O tombo começou na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno, quando o Ibovespa acionou o circuit breaker. O índice emendou cinco sessões de queda e encerrou outubro com o pior desempenho mensal desde junho de 2022.
No Tesouro Direto, os títulos prefixados tiveram a maior alta diária de taxas da série histórica, iniciada em 2005, e o Tesouro Nacional cancelou leilões e recomprou papéis para conter a volatilidade. Na Bolsa, a leitura predominante entre analistas passou a ser de cautela, com carteiras mais defensivas e alertas de que a recuperação pode levar meses.
Para Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital, a reação reflete uma quebra de expectativa, já que o mercado esperava maior controle de gastos no próximo governo. Com o resultado das urnas, segundo ele, “o mercado encontra-se em um momento de incerteza quanto às contas públicas e de receio quanto ao futuro da dívida pública brasileira”.
Nas opções de Copom negociadas na B3, a probabilidade de manutenção da Selic, minoritária antes da eleição, chegou a perto de 70% no fechamento de quinta-feira (29), contra cerca de 30% de chance de um corte de 0,25 ponto percentual. Os contratos embutem até apostas residuais em alta dos juros.
Antes do segundo turno, a discussão se concentrava em quantos cortes adicionais o Copom ainda faria, lembra Leandro Padulla, economista do ASA. “Agora, o debate passou a incluir a possibilidade de interrupção imediata do ciclo de flexibilização monetária”, diz.
Para um operador ligado a um importante banco estrangeiro, ouvido pelo InfoMoney, a volatilidade dos últimos dias tira do BC parte da base técnica para decidir. Os preços na tela, segundo ele, ainda refletem desmontagem de posições e ordens de stop loss, e o câmbio pode mudar de patamar rapidamente a depender dos anúncios do governo. “A decisão deixa de ser uma decisão quantitativa, vai ser uma decisão mais qualitativa”, afirma.
O operador vê argumentos para os dois caminhos, mas defende a pausa. Na avaliação dele, interromper os cortes depois de um evento desse porte é mais fácil de justificar e deixa a porta aberta para retomá-los mais adiante. Já um corte agora, com o investidor local em pânico, poderia alimentar teorias sobre a independência do BC, ainda que ele não veja risco real de credibilidade. “Se eu fosse ele, eu não cortava”, resume.
Fonte: Infomoney

