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A cena é cinematográfica. Um grupo formado por dezenas de criminosos, usando armas de grosso calibre, explosivos e ateando fogo em veículos para bloquear vias de acesso acaba com a paz durante a madrugada em alguma pequena cidade brasileira.
Explodem e roubam agências bancárias, fazem reféns durante a fuga, trocam tiros com a polícia e deixam para trás toda uma população aterrorizada.
A ação ficou conhecida na imprensa no final dos anos 1990 como “novo cangaço”, uma alusão aos grupos sertanejos que, na primeira metade do século 19, percorriam o Nordeste e norte de Minas Gerais sitiando e saqueando cidades, vilas e fazendas.
Mas o que acontece nessas cidades depois que as agências bancárias explodem?
Um grupo de pesquisadores criou um banco de dados inédito catalogando 1.396 explosões de bancos, em 775 municípios, de 15 Estados brasileiros, entre 2018 e 2021.
Cruzando essas informações com dados sigilosos do Banco Central do Brasil, eles investigaram como a redução na oferta de dinheiro em espécie nos municípios alvos dessas ações criminosos impacta a adoção de tecnologias financeiras pela população local.
O que eles encontraram ajuda a entender o que determina o uso dessas tecnologias pelas pessoas e pode contribuir para maior inclusão financeira e competição bancária no Brasil.
Setor bancário em transição
“Queríamos entender o efeito da transição dos bancos comerciais tradicionais, de um modelo de negócios muito focado nas agências, para um modelo de mercado digital”, explica Lucas Argentieri Mariani (Universidade de Milão), um dos autores do estudo, ao lado de José Renato Ornelas (Banco Central do Brasil) e Bernardo Ricca (Insper).
A pesquisa foi publicada como texto para discussão pelo Banco Central e também virou tema de artigo no blog do Banco Mundial.
No Brasil, essa transição acontece de forma acelerada: foram 4.903 agências bancárias fechadas entre 2016 e 2021, uma redução de 22%. Como resultado, o número de agências por 100 mil habitantes diminuiu de 11 para 8,3 e a parcela de municípios sem agências subiu de 36% para 44%.
Essa mudança tem impactos, por exemplo, no emprego. Segundo dados compilados pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), entre 2013 e 2021, o setor bancário já perdeu mais de 69 mil postos de trabalho com carteira assinada no Brasil.
E a mudança deve continuar: um estudo de 2021, produzido pela The Economist Intelligence Unit, mostrou que 65% dos executivos de bancos acreditava que o modelo baseado em agências deve desaparecer em cinco anos, ante 35% que pensavam assim em 2018.
“Os bancos estão diminuindo sua presença física e queríamos entender melhor o efeito disso sobre o uso de tecnologia”, diz Mariani, que também é pesquisador do Economic Research Southern Africa (ERSA), programa de pesquisa financiado pelo banco central da África do Sul.
Os pesquisadores queriam saber ainda se a presença de agências bancárias funciona como uma barreira para a entrada de novos agentes – como bancos digitais e fintechs – nos mercados locais.
Eles então encontraram uma forma engenhosa de estudar esses dois fenômenos: olhar para cidades brasileiras que passaram por ataques a agências bancárias com uso de explosivos.
Esses ataques são uma espécie de “experimento natural”, explicam os economistas. Porque eles produzem uma interrupção do serviço bancário que independe da decisão dos bancos.
Além disso, como as ações são realizadas por organizações criminosas não-locais, elas não estão relacionadas a mudanças no padrão de criminalidade dos municípios que também poderiam influenciar na opção das pessoas por usar mais tecnologias financeiras e serviços digitais.
Fonte: Correio Braziliense

