Governo usa dinheiro do BNDES para cobrir dívida e despesas

Receita Federal bate recorde de autuações em 2017, com R$ 204,99 bilhões
16 de fevereiro de 2018
Indústria de cartões propõe ao BC alternativa para compras parceladas sem juros
19 de fevereiro de 2018
Receita Federal bate recorde de autuações em 2017, com R$ 204,99 bilhões
16 de fevereiro de 2018
Indústria de cartões propõe ao BC alternativa para compras parceladas sem juros
19 de fevereiro de 2018

Governo usa dinheiro do BNDES para cobrir dívida e despesas

O governo está tomando dinheiro emprestado para honrar despesas do dia a dia, como folha de pagamento de servidores civis e militares, além de benefícios da Previdência Social.

A prática é vedada pela chamada regra de ouro, norma que proíbe o governo de se endividar para pagar despesas de custeio. Pela norma, os recursos tomados no mercado devem ser usados em investimentos e amortizações da própria dívida.

A regra de ouro só não está sendo formalmente descumprida porque, desde 2016, o governo federal tem coberto a diferença entre a tomada de empréstimos e as despesas correntes com recursos recebidos do BNDES –foram R$ 100 bilhões em 2016, R$ 50 bilhões em 2017 e mais R$ 130 bilhões previstos para este ano.

Levantamento feito pela Folha nas despesas federais mostra que, em 2016, o Executivo pagou benefícios da Previdência Social com dinheiro cuja fonte são emissões de dívida no mercado. Foi a primeira vez, pelo menos desde 2000 (quando começa a série de dados), que o governo fez pagamentos de aposentadorias do INSS com recursos de empréstimos.

O quadro se agravou no ano passado. Além de benefícios com a Previdência, o Tesouro Nacional usou dinheiro dos empréstimos para custear despesas com seguro-desemprego, salários e aposentadorias de militares.

A prática prosseguiu neste início de ano, indicando que o governo não vê travas para a utilização do dinheiro tomado no mercado.

NORMAS

O Ministério do Planejamento afirma que obedece as regras vigentes e ressalta que a norma atual não veda o uso de dinheiro emprestado para gastar com despesas correntes. Apenas proíbe que esses empréstimos superem as despesas de capital (investimentos e amortizações). No entanto, a pasta admite que isso só não está ocorrendo graças ao dinheiro do BNDES.

Para o especialista em contas públicas e consultor do Senado Leonardo Ribeiro, a versão oficial para o cumprimento da meta é “estritamente contábil”. “Isso enfraquece o instituto em seu prisma econômico, o de impedir uso de dívida para gastos correntes.”

ORIGENS

O governo chegou a esse ponto após anos seguidos de elevados deficit orçamentários (o que ocorre desde 2011). Isso significa dizer que as receitas não estão cobrindo as despesas, o que faz com que o governo tenha que tomar dinheiro emprestado para cobrir a diferença.

Além disso, na tentativa de ajustar as contas, o governo está cortando o que pode, e os investimentos são a primeira opção, pois não têm regras rígidas de dispêndio, como a Previdência ou os salários de servidores. Isso faz com que as despesas de capital fiquem ainda menores, forçando o governo a reduzir os empréstimos na mesma proporção.

O dinheiro do BNDES surgiu então como um colchão para dar conta dessa diferença, sem a necessidade de o Tesouro segurar o endividamento. O problema é que o dinheiro do banco estatal não será suficiente para fechar a conta em 2019, o que já levou os ministérios da Fazenda e do Planejamento a estudar alternativas jurídicas para o impasse. Entre as propostas, está a mudança da lei, o que demandaria uma emenda à Constituição.

O descumprimento da regra de ouro pode resultar em crime de responsabilidade, punindo gestores, ministros e até o presidente da República, o que poderia desaguar até em um processo de impeachment.

Fonte: Folha de S.Paulo

Os comentários estão encerrados.