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Bolsa afunda 4% sob ‘efeito Lula’, liberado a disputar eleições de 2022

Ibovespa estava em queda e desabou de vez após a decisão de Fachin, do Supremo, de passar a borracha nas condenações do ex-presidente em Curitiba. Preço do dólar, que já subia, acelerou e fechou perto das máximas. Aversão ao risco, embora mais moderada que das últimas horas de sessão, prevalecia desde a abertura. Pesavam perspectivas de contração da economia, entre recordes de mortes, restrições de mobilidade retomadas, vacinação lenta e mutações mais infecciosas da covid-19 pelo Brasil

O clima favorável para ganhos na bolsa da semana passada, a despeito de 10 mil mortes por covid-19 no período, não se fez presente nesta segunda-feira (8) desde a abertura do mercado. Pesavam na sessão as perspectivas de contração da economia, entre recordes de mortes, novas restrições de mobilidade, vacinação lenta e mutações velozes e mais infecciosas pelo Brasil.

Com 80 das 82 ações no vermelho, o Ibovespa fechou em baixa de 3,98%, aos 110.612 pontos.

Ao todo, foram movimentados pela carteira teórica R$ 35,5 bilhões, volume 27,5% acima dos R$ 27,9 bilhões médios diários de 2021.

O preço do dólar comercial subia no fechamento 1,70%, aos R$ 5,7788.

Como se sabe, Edson Fachin, ministro do Supremo, passou uma borracha em todas as condenações de Lula em Curitiba. O mérito de processos sobre o triplex do Guarujá, do sítio de Atibaia e do Instituto Lula não esteve em jogo. Mas, sim, a competência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar esses casos. Os processos voltam à estaca zero, enviados para a Justiça Federal do Distrito Federal.

A reação negativa do mercado, na visão do economista-chefe do banco Modalmais, Alvaro Bandeira, passa pela insegurança jurídica nacional destacada pelo episódio. “Uma frase atribuída equivocadamente ao ex-ministro Pedro Malan resume bem, ‘no Brasil, até o passado é incerto’“, diz. “É incerteza na área econômica, na atuação do Parlamento, problemas políticos, a falta de segurança jurídica, então, tudo isso contribui para a reação nervosa do mercado.”

Para o chefe de análise da Inversa, Flávio Conde, a reação foi exagerada. “É uma coisa que vai influenciar só no ano que vem“, diz. “O mercado está perdendo o foco, o foco não é em hipótese nenhuma quem vai ser candidato em 2022, e muito menos quem vai ganhar. Temos um problemão pela frente com a pandemia, as mortes, a economia parando.

  • Há de se considerar, ainda, que a maior parte dos negociadores do mercado não morre de amores por Lula.

Pesquisa do instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec) divulgada no domingo aponta, no entanto, que o petista tem maior potencial de votos que Bolsonaro. Cerca de 50% dos entrevistas dizem que poderiam votar no ex-presidente, enquanto 38% topariam reeleger o atual presidente. Que foi eleito em 2018, afiançado pelo ministro Paulo Guedes, com importante apoio de gestores, analistas e investidores do Brasil.

  • Mas antes, como dito, o dia já era de aversão ao risco, ainda que mais moderada. E porque há uma crise tremenda no pano de fundo, ainda longe de ser resolvida.

Pregões como este, de aprofundamento do desconto dado nas ações do Brasil em relação ao mundo, são esperados por Conde. “Os 115 mil pontos alcançados na semana passada me preocupam, porque não reflete a realidade do que está acontecendo nem o que ainda acontecerá“, disse pela manhã, em live exibida pelo Valor Investe.

Acho que o mercado no Brasil está num modo fora de compasso com a realidade. O mercado nacional tem essa característica de às vezes demorar a reagir ao que está acontecendo”, diz. De acordo com ele, já aconteceu esse tipo de descompasso em 1994, com a crise do México; em 1997, na crise da Ásia; em 2008, com a crise financeiro global; em 2011, com a crise na Europa. Em 2021, ele aponta para letargia semelhante antecedendo a reação de investidores ao cenário sombrio que se desenha pelos próximos meses.

“Tínhamos um cenário muito positivo no fim do ano passado, com o pacote de gastos de Joe Biden, a vacinação começando, o auxílio emergencial ainda sendo pago, mas essas coisas foram se perdendo”, diz. “A vacinação está muito atrasada, ninguém imaginava uma segunda onda como esta e muito menos um lockdown forte como o iniciado, que eu duvido que vá levar só duas semanas em São Paulo, pelo menos quatro e pode até andar mais, o que breca a economia e aumenta o desemprego.”

Como agravantes, Conde aponta primeiro para a ausência de auxílios desde o primeiro dia deste ano. “Em novembro já se sabia que ia terminar o auxílio, estamos já em 8 de março, nada foi aprovado ainda e não se sabe ao certo quando será retomado. Você tem famílias não recebendo, não consumindo, passando fome”, diz. Como segundo ponto, destaca a indústria nacional parando por falta de peças.

“Temos uma recessão no primeiro trimestre e talvez no segundo, e o dólar subindo por causa de uma piora fiscal, indo para, no mínimo no fim do ano, R$ 5,50. A gente não pode esquecer que lockdown de quatro semanas significa um mês com arrecadação de impostos caindo“, diz. “Teremos ainda, tranquilamente, uma inflação [custo de vida] mais alta do que a projetada hoje, temos todas as commodities subindo de preço, fora o dólar, e o Banco Central vai ter que subir juros.

Por outro lado, servindo para conter eventuais tombos do Ibovespa, há o grande peso dado em sua composição a empresa vendedoras da matéria-primeira, com destaque para os 13% ocupados pela Vale. Também presente na live do Valor Investe pela manhã, o sócio de gestor da MOS Capital, Fernando Fanchin, aponta que o crescimento global, embora o Brasil não tenda a compartilhar desse processo, acaba por amortecer impactos sobre o índice. Não que esteja otimista, mas acredita que possa haver alguma estabilidade.

E mesmo que venham realizações fortes no Ibovespa pelos próximos tempos, sem que exportadoras e bancos segurem o tranco, Fanchin lembra a importância de se olhar para o longo prazo. Conde faz coro a essa visão, e alerta para investidores pessoa física não saírem se desfazendo de ações de boas empresas numa espécie de efeito manada de vendas nestas próximas semanas.

Fonte: Valor Investe

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