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14 de julho de 2022Relatório anual passa a ser obrigatório a partir de 2023. Instituições estabelecem metas de financiamento a negócios sustentáveis
Em setembro de 2021, o Banco Central (BC) e o Conselho Monetário Nacional (CMN) publicaram um conjunto de normas para instituições financeiras em relação à agenda ESG. Em resumo, ampliaram exigências que já existiam e reforçaram regras para divulgação de informações e mapeamento de riscos com um enfoque maior e mais detalhado para as questões climáticas.
Passou a ser pedido, por exemplo, a realização de teste de estresse climático para avaliar hipóteses de mudanças de clima e de transição para uma economia de baixo carbono. Também será obrigatória, a partir de 2023, a divulgação anual do Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticas, chamado de GRSAC. Outras normas entram em vigor já neste mês.
Segundo Marcelo Pasquini, líder de sustentabilidade do Bradesco, tem sido “natural” adotar as recomendações do BC. No momento, a instituição está rodando três pilotos para a mensuração de riscos climáticos físicos e de transição e a agregação deles aos demais riscos. Um dos principais desafios, diz, está nas análises de cenários a partir dos testes de estresse climático, que são de muito longo prazo e não são, geralmente, feitas de forma tão detalhada para o Brasil.
Em 2019, o Bradesco fez o primeiro estudo de emissões de gases efeito estufa de sua carteira de crédito, com foco em setores como agropecuária, imobiliário e veículos. Em 2020, foi o primeiro do setor no Brasil a aderir à Partnership for Carbon Accounting Financials (PCAF), parceria global entre instituições financeiras para desenvolver e implementar padrões de mensuração e divulgação de emissões associadas a empréstimos e investimentos.
Com base na metodologia da PCAF, o banco publicou pela primeira vez, em 2020, o cálculo das emissões financiadas, com classificação setorial em sua base de dados, cobrindo 92% da carteira de crédito pessoa jurídica (PJ) ano passado, conforme informações do relatório integrado de 2021. Foram identificados os setores mais emissores e os que podem ter maior transformação.
Aliança Global
Com o objetivo de descarbonizar seu portfólio até 2050, no ano passado, o banco aderiu ao Net-Zero Banking Alliance, aliança que reúne 113 bancos de mais de 40 países — lista que inclui Santander e Itaú. Também definiu a meta de direcionar R$ 250 bilhões, até 2025, para financiar setores e ativos de impacto socioambiental positivo. Até março deste ano, 43% do volume total já haviam sido destinados para negócios sustentáveis.
O Santander é outro “bancão” que está se mexendo para se adequar às novas exigências da economia verde. Desde 2020, a instituição inclui em suas avaliações socioambientais a exposição dos clientes ao estresse hídrico e sua dependência desse recurso, por meio de uma ferramenta própria que considera três aspectos: qualidade dos processos de gestão da água, vulnerabilidade da atividade econômica e a região onde o negócio está.
Christopher Wells, superintendente executivo de risco socioambiental do Santander, diz que o banco realiza cerca de 2 mil análises socioambientais, por ano, incluindo negócios com operações na Amazônia, produtores de soja e processadores de carne bovina. Para Wells, um dos maiores desafios das normas do BC é o acesso a dados.
— E se chover pouco nos próximos três anos, como ficaria a geração de energia hidrelétrica, por exemplo? É um cenário hipotético. Não existe nenhum modelo de ‘think thank’ ou órgão de governo para ajudar os bancos e as empresas — analisa.
Na temática social, existe também uma dificuldade em relação a dados.
—Tem lista para [empresas que utilizam] trabalho escravo, mas não tem para outros temas, como trabalho infantil ou assédio. Então, o que fizemos? Modernizamos o questionário enviado para os clientes — conta Maria Silvia Zanardi, superintendente de risco socioambiental do Santander.
O ABC Brasil acaba de publicar seu primeiro relatório de sustentabilidade que inclui análise setorial da carteira de crédito. Em torno de 23% dela estão focadas em agronegócio que, por si só, é inerente a riscos climáticos. Foi montado um time multidisciplinar socioambiental para entender quais ajustes de sistemas e bases de dados terão de ser feitos. Neste ano, o banco vai mapear as emissões de gases de efeito estufa financiadas, para divulgá-las em 2023. O banco prevê implementar diretrizes para setores mais expostos a questões climáticas.
— Não estamos falando em proibição. Não é excluir, e sim trazer para o jogo e entender como podemos ajudar os clientes — afirma Antonio Ferrari, líder de sustentabilidade e risco socioambiental do ABC.
Fonte : O Globo

