O contingente de brasileiros que passam fome voltou a aumentar. A pesquisa do IBGE divulgada nesta quinta-feira (17) analisou dados de 2017 e 2018.
Uma enxada. E quantas bocas para alimentar? “Uma, duas. Dois estão lá em cima…”, conta Sofia.
Debaixo de um mesmo teto, 12 pessoas: seis crianças e seis adultos, nenhum com emprego formal. Em Mesquita, na Baixada Fluminense do Rio, Sandra é a chefe da casa, o que significa que ela é a última a comer.
Repórter: Você não almoçou?
Sandra: Não almocei.
Repórter: São 15h45.
Sandra: Eu ainda não almocei.
Repórter: E não vai almoçar?
Sandra: Não vou almoçar. E de repente também não vou jantar, porque para eu comer e deixar os meus netos com fome, é melhor elas comerem do que eu.
Sofia tem cinco anos e já entende as palavras da avó porque, às vezes, a comida não chega para ela também: “Ela não tem dinheiro nem para comprar pão às vezes. E eu durmo com fome. Arroz e feijão às vezes também não tem não”.
No Brasil, existem mais de 10 milhões de pessoas que passam, não só pela incerteza do vão comer no dia seguinte, mas também não sabem como vai estar o prato das crianças. É o que mostra a pesquisa de orçamentos familiares, feita em 2017 e 2018, e divulgada nesta quinta (17) pelo IBGE.
A pesquisa identifica os casos de insegurança alimentar grave. O significado dessa expressão todos conhecem e, infelizmente, muitos sentem: é a fome. E o número que é sempre triste, dessa vez é ainda mais, porque aumentou: de cada 100 lares brasileiros, em pelo menos quatro, nem as crianças têm o que comer em todas as refeições.
“As crianças estão em uma fase de desenvolvimento, que seja um desenvolvimento tanto físico, mas também neuropsíquico, afetivo, etc. O sofrimento da fome gera situações e consequências perenes, não só no corpo, mas também em todo o desenvolvimento cognitivo”, explica Elisabetta Recine, do Observatório de Política de Segurança Alimentar da UNB.
O IBGE classifica a insegurança alimentar em três níveis. O primeiro deles é a preocupação com a falta de comida. “Essa semana, eu olhei para o meu armário e pensei: ‘Meu Deus, não sei o que vai ser de mim'”, conta a dona de casa Fernanda de Oliveira, com a filha pequena no colo.
Os lares considerados moderados e graves são aqueles onde é preciso diminuir a comida no prato ou pular refeições.
A insegurança alimentar em todos os níveis veio diminuindo de 2004 a 2013. A melhora é lenta, e a piora é rápida. Depois dos avanços, o aumento brusco de 2018 traz o resultado mais preocupante até hoje. Nos casos mais graves, a linha do tempo é semelhante: melhora nas três primeiras pesquisas e aumenta nessa última.
A pesquisa foi feita depois de dois anos de queda no Produto Interno Bruto, mas os especialistas dizem que o problema da fome vai além da economia. “O conjunto de políticas que configuram o que a gente chama de rede de proteção social, que foram fundamentais para os resultados positivos que o Brasil vinha alcançando, também foram precarizados. Ou por redução drástica de orçamento ou por fragilização das instituições e das equipes que faziam o andamento da implementação desses programas. Então, em cinco anos, nós regredimos 15”, destaca Elisabetta Recine.
Nenhuma região está livre da fome, mas o contraste é grande. A fome no Norte (10,2%) é quase cinco vezes maior do que no Sul (2,2%). No meio, o Centro-Oeste (4,7%), bem perto da média nacional. Perto de cada um dos extremos, estão o Sudeste (2,9%) e o Nordeste (7,1%), região que concentra o maior número de brasileiros nessa condição, mais de 4 milhões.
Em Juazeiro, na Bahia, essa é a casa de Dona Gonçala, de 66 anos – na maioria deles, enfrentando a fome: “Dá uma dor por dentro. Aquela dor na cabeça, aquela vontade de chorar, aquela vontade de ribar no mundo”.
Bem longe dali, na casa da Sandra, três crianças estão começando a vida nessa mesma condição: “Tem dia que elas dormem até sem mamá, porque não tem como mamar. Dorme chorando, entendeu? Vou fazer o quê? O meu coração corta, mas vou fazer o quê?”.
No domingo (20), Eloá faz dois anos e Alice, sete meses.



